IA e Necromancia
Por que utilizar IA para escrever?
Encontrei algo que escrevi há um tempo e decidi fazer um experimento. Coloquei na Inteligência Artificial esse meu texto original:
Os primeiros dias não são os mais difíceis, mas os primeiros dias após os primeiros dias.
Nos primeiros dias tudo ainda é novidade: bolos e flores chegam em sua casa, mensagem de acolhimento se acumulam e você quase não consegue responder a todas.
-“Como é fofinha!”; “Que gracinha”; “Manda mais fotos”.
O que você preparou para o puerpério ainda está fresco. As fraldas organizadas por tamanhos, roupas limpas, sopas feitas na geladeira.
Você percebe que a rotina é cansativa, mas você tem ânimo; se preparou para isto.
Uma, duas, três noites sem dormir e uma semana depois você começa a esquecer o nome de coisas simples e aponta para aquele negócio que espreme fruta sem conseguir denominá-lo.
O mais difícil não são os primeiros dias, mas os primeiros dias após os primeiros dias.
Você está mais cansada; o que você preparou para os primeiros dias já acabou; o bebê demanda o mesmo - ou ainda mais - e há dias você está na batalha e começa a se perguntar: Quando finalmente ficará mais fácil?
Tenha paciência, menina, sua luta agora começou.
Bem-vinda aos segundos dias...
Tenho tentado conversar com a IA para entender onde está a beleza do que sei fazer por meio da escrita. Escrevo meus textos, coloco no Claude.IA e pergunto quais características ele consegue observar que distinguem meu texto de um texto feito pela inteligência artificial.
Quase sempre me surpreendo, ele identifica características que eu sequer tinha prestado atenção, como a progressão temporal de alguém que vivenciou aquela realidade, detalhes específicos e banais que só humanos poderiam ter lembrado e presença de contradições que a IA tentaria resolver.
Por vezes meus textos também não pretendem ensinar nada, mas apenas narrar como vivenciei algo, com a esperança de que quem esteja vivenciando esta mesma situação também possa se identificar e eu possa trazer palavras que a façam se sentir pertencente e compreendida.
Dito isto, pedi para ao Claude para criar um prompt que pudesse gerar o texto mais similar possível ao que tinha escrito. Eis o que ele gerou:
“Escreva um texto em primeira pessoa sobre o puerpério, mas NÃO faça:
Listas ou bullet points
Explicações didáticas sobre o que é puerpério
Conselhos ou dicas práticas
Tom motivacional ou de autoajuda
Linguagem clínica ou técnica
FAÇA:
Escreva como se você estivesse conversando com uma amiga que vai se tornar mãe em breve
Use linguagem coloquial brasileira, pode usar “menina”, “você”
Foque na experiência EMOCIONAL e SENSORIAL do cansaço extremo
Inclua detalhes muito específicos e pequenos (tipo esquecer nome de objetos comuns)
Use repetição poética de uma frase-conceito que você criar
Quebre expectativas: mostre que o difícil NÃO é o óbvio
Termine com algo meio dramático/poético, sem resolver ou consolar
Máximo 200 palavras
Parágrafos curtos, ritmo quebrado
Tom: honesto, cru, mas com afeto
Ângulo: O momento em que a adrenalina dos primeiros dias acaba e a realidade do cansaço permanente se instala. Aquele momento de “espera, isso não acaba?”
Escreva como se você tivesse vivido isso ontem.”
Este prompt tenta replicar:
A estrutura não-convencional
O tom confessional
Os detalhes sensoriais específicos
A ausência de didatismo
O conceito criativo central (primeiros dias vs. segundos dias)
Muito embora este prompt fosse extremamente detalhado e só pudesse produzi-lo quem de fato já saberia o que queria falar e como gostaria de falar - o que me leva a concluir que é mais fácil fazer do que ensinar a IA a fazer - enviei este prompt para que ele tentasse gerar um texto o mais similar possível ao meu original.
Ele me gerou este texto:
Menina, deixa eu te contar uma coisa que ninguém me contou direito.
Os primeiros dias você nem sente. Juro. Tem visita, tem foto, tem aquela coisa de “nossa, eu fiz um ser humano”. Você tá voando. Você tá em outro planeta.
Aí todo mundo vai embora.
E é quando você percebe que o cansaço não tem fim. Ele não tem fim. Ele não tem fim.
Você vai esquecer o nome daquela coisa de fechar a porta. Sabe? Aquilo. A chave. Você vai chorar porque não lembra se já trocou a fralda ou se foi ontem. Você vai tomar banho e esquecer de lavar o cabelo. Ou lavar duas vezes. Você não vai saber.
O difícil não é a dor, não é o peito rachado, não é o sangue.
O difícil é acordar e perceber que não existe mais “amanhã eu descanso”. Que isso é agora. Que é assim. Que você vai viver dentro de um nevoeiro onde às três da tarde parece seis da manhã e às seis da manhã parece que você nunca, nunca dormiu.
Você vai sentar no chão da cozinha só porque sentar parece uma vitória.
E vai perceber que seu corpo agora mora num lugar onde o tempo não existe mais, onde dormir é só uma memória antiga de outra vida, de outra você que não volta nunca.
A não ser que você tenha pulado toda a citação, você também viu que é um texto ruim por vários motivos: é extremamente dramático, performático, nada poético. Mesmo assim mantive o exercício de tentar entender em que ponto a IA pode ser útil para a escrita.
Pedi para comparar o texto que foi gerado com meu texto original, que escrevi com apenas 16 dias pós-parto, cuidando de um recém-nascido às 04h da manhã, e ele identificou o que eu já tinha percebido: era um texto que tentava aparecer mais do que ser.
Não satisfeita com a resposta, pedi para reescrever o segundo texto com as características do que eu escrevi uma Bic em uma folha de papel. O resultado? Melhorou consideravelmente, mas ainda me parecia sem alma. Um simulacro da realidade como acontece com os que voltam dos mortos apenas em corpo mas retornam sem alma. Esse exercício de necromancia não valia a pena. Quer ver?
Menina, deixa eu te contar uma coisa.
Os primeiros dias você nem percebe. Tem gente, tem barulho, tem aquela sensação de que você fez algo extraordinário.
Aí a casa fica quieta.
E você descobre que o cansaço não é dos primeiros dias - é dos dias que vêm depois, quando ninguém mais pergunta como você está.
Você vai esquecer a palavra “chave”. Vai ficar na frente da porta procurando aquela coisa que abre. Vai rir de si mesma, meio assustada.
Tem uma hora que você senta no chão da cozinha. Não porque precisa, mas porque ali, naquele momento, sentar no chão faz todo o sentido do mundo.
O difícil não é a dor. É acordar e perceber que “amanhã eu descanso” não existe mais.
É perceber que você mora num tempo diferente agora. Um tempo onde três da tarde e seis da manhã são a mesma hora embaçada.
Bem-vinda ao cansaço que fica.
“Bem vinda ao cansaço que fica” é quase cômico, comparado ao meu desfecho “Bem vinda aos segundos dias”. Uma tentativa de cópia muito aquém da original. Assim, pedi agora uma nova comparação, linha a linha e descobri mais uma vez que onde eu descrevo especificidade, ele é geral; onde eu tento ser verdadeira, ele tenta agradar. Ou, em suas palavras(?), onde “ os humanos lembram de “fraldas”, IAs pensam em metáforas.” Se é que este paralelo faz algum sentido...
O que o texto original tem de insubstituível:
1. Especificidade sensorial:
“Fraldas organizadas por tamanhos”
“Sopas feitas na geladeira”
“aquele negócio que espreme fruta”
Esses detalhes domésticos e banais criam veracidade.
2. Ritmo narrativo vivido:
A progressão “Uma, duas, três noites sem dormir e uma semana depois...”
Você SENTE o tempo passando
3. Conceito criativo único:
“os primeiros dias após os primeiros dias” → ideia original
“segundos dias” → neologismo poético perfeito
4. Economia absoluta:
O original tem 156 palavras
Cada frase é essencial
Nenhuma quer impressionar
O que denuncia o reescrito:
“meio assustada” - adjetivo explicativo desnecessário
“faz todo o sentido do mundo” - clichê explicativo
“tempo onde três da tarde e seis da manhã são a mesma hora embaçada” - metáfora bonitinha demais, construída
Falta a progressão concreta: bolos→flores→mensagens→sopas→fraldas
O exercício tem me ajudado a perceber e valorizar ainda mais características da originalidade dos textos escritos por humanos.
Li ontem no livro “The Art of Slow Writing: Reflections on Time, Craft, and Creativity”, a autora Louise DeSalvo comparando o processo de escrita quando o que se tinha à disposição era apenas o texto à mão, depois a máquina de escrever e depois o computador.
Ela dizia como a escrita à mão e a necessidade de repassar tudo a limpo fazia com que não houvesse tantas modificações e inserções assim. Acrescentar algo no meio do capítulo poderia significar reescrever o capítulo inteiro. Então, comumente, os escritores iniciavam uma primeira versão à mão, revisavam esta versão à mão produzindo garranchos quase ilegíveis e, então, passavam a limpo em suas máquinas de escrever. E era isso, o trabalho estava pronto. Se quisessem fazer mais uma revisão e alterassem algo de substancial, precisavam reescrever e até passar a limpo um capítulo inteiro ou mais em uma atividade lenta como a de digitar em máquinas de escrever, que possuem as teclas pesadas e um erro é fácil de ser cometido e difícil de ser consertado.
Quando surgiu o computador, isto foi disruptivo para os escritores. Você poderia trabalhar em partes diferentes do seu texto sem se perder, não precisava seguir uma ordem determinada, poderia brincar com palavras e reescrever quantas vezes quisesse. As possibilidades de materiais eram tão infinitas que não se sabia o que deveria colocar ou tirar e se poderia reescrever ao infinito. A autora, que fez seus três primeiros livros sem usar máquina de escrever, agora, com computador, disse que tinha mais liberdade para ousar, mas - como aparente contradição - agora demorava muito mais para seus livros ficarem prontos, pois podia editar com facilidade eternamente.
O computador nos permitiu ter livros melhores? Não tenho essa informação. Pode parecer que sim, mas eu tendo a pensar que aqueles que eram escritos com recursos mais limitados eram mais pensados e, assim, somente as melhores obras chegariam ao público. É uma hipótese da qual posso estar equivocada.
Hoje qualquer um pode abrir o computador, tablet ou celular e começar a digitar e publicar autonomamente por diversos canais. Mas mesmo digitar está ficando fora de moda, muito difícil - com a inteligência artificial - agora, escrever parece ter se transformado em gerar, então a digitação é apenas para construir comandos e revisar o que a inteligência artificial produziu. Sinto que em um futuro muito breve as pessoas cada vez mais terão preguiça de digitar, hoje já se tem preguiça de escrever…
Sem falar da parte ética da IA ter sido treinada com bilhões de dados não autorizados de diversos autores e conteúdos da humanidade inteira, me parece que ainda não vi muita vantagem em ser um escritor que usa uma ferramenta de IA para gerar seu texto em versão original.
O computador alterou como a escrita era produzida, o ato de escrever em si, bem como o fato de ter uma caneta com tinta interna também facilitou muito o processo quando antes era a pena na tinta, mas a IA parece transformar o ato de escrever em outra coisa. Não é uma ferramenta da qual usamos, mas na verdade, parece que somos usados por ela.
Se eu escrevo muitos textos com IA e leio muitos textos produzidos com IA, eu começo a naturalizar sua forma de falar, suas generalizações, repetições forçadas, binômios “não é isso, mas aquilo” ou formas de escrever que não são sequer português mas traduções forçadas do inglês como “é sobre isso”. Ao parar de produzi-la nós matamos a língua aos poucos e somos dominados por quem produz os textos. Se deixarmos isso para as máquinas, seremos colonizados por elas - ou por quem as criou.
Não sei o que estamos ganhando ao incluir IA como parte estrutural de um processo de escrita de nosso texto. Normalmente a tecnologia é criada para nos ajudar a resolver um problema, mas agora parece que primeiro inventam a tecnologia e depois vemos o que dá para resolver com ela. O principal é se destacar, é ter lucro e se diferenciar nesse mercado tão competitivo.
Eu tenho muito receio com o uso de Inteligência Artificial como parte do processo de escrita, uso no máximo para me ajudar a revisar o que escrevi rápido sem muito cuidado pois estava com pressa (Mãe de bebê pequeno aqui!);
Mas para eu conseguir usá-la bem, pra produzir algo minimamente similar ao de um humano eu vou ter muito, muito trabalho e vou precisar ser muito boa no que faço, dizendo comandos específicos, ou seja, não compensa. É mais fácil e mais prazeroso eu fazer, afinal, o processo de escrita não é apenas sobre o resultado; escrevo porque gosto de escrever e porque aprendo a escrever escrevendo. A primeira vez que escrevo, escrevo para mim; escrevo para dominar uma arte e só depois, edito pensando no outro.
Por que então escrever por meio de uma IA? Não sei essa resposta. Não tenho mais tempo para escrever hoje, nem para editar. Minha bebê já vai acordar e meu marido vai sair.
O texto ficará sem conclusão, como um bom texto não escrito por IA.
E você, o que pensa sobre tudo isso?




Textão sensacional!! Amei o texto sobre os segundos dias, e achei genial a comparação sobre o mesmo texto escrito pela IA. A IA não consegue escrever sobre puerpério com alma pelo simples fato de não ser capaz de passar por um puerpério, e você demonstrou isso na prática. Sensacional!
Ps. Publica o texto dos segundos dias!!!